quarta-feira, setembro 06, 2006

Portugal!-Portugal!

Há uns anos atrás havia um anúncio na televisão em que Portugal era dito com a cadência de uma batida cardíaca: “Portugal-Portugal”. Creio que foi por ocasião do Euro 2004 e o anúncio era de uma rede de hipermercados.

Neste momento estou de regresso a terras lusas naquele que é o meu segundo flyback, e no dia da viagem a voz que andava constantemente a falar-me na cabeça dizia apenas como no anunico “Portugal-Portugal… Portugal-Portugal… Portugal-Portugal”.

O regresso teve no entanto alguns percalços. Começou logo no checkin da bagagem ainda no Dubai, onde o senhor muito simpaticamente começou por dizer que tinha 17 kg mais, e que tinha que tirar pelo menos 10. Isto de um total permitido de 60 kg, pois éramos 3 e cada um poderia levar 20kg. Ainda estive algum tempo a tentar compreender como é que tendo levado apenas 2 malas para o Dubai, conseguimos regressar com 3 malas completamente cheias e ainda com 17 kg a mais, mas acabei por desistir. Lá começou então a operação de “baralha e torna a dar”, tendo-me valido a presença de um colega que viajava connosco no mesmo voo.

Chegados a Paris começou o grande stress. O tempo de chegada entre o avião proveniente do Dubai e a hora do avião que nos levava a Portugal era relativamente curto, cerca de uma hora. Isto aliado ao voo do Dubai ter chegado atrasado podia adivinhar um final muito triste. O avião era para ter chegado às 6:15 hora local, chegou eram 6:30 e ainda demorou uns 10 minutos para abrirem as portas. O voo para Portugal era às 7:20.

A primeira coisa que fiz quando saí do avião, foi dirigir-me a uma hospedeira de terra da Air France e pedir-lhe simpaticamente por um “Buggy” que me levasse ao checkin do avião para Portugal. Ela respondeu-me naquele inglês francófono “The bags are this way”. Tornei a insistir com o termo buggy e depois com Electric Car, ao que ela olhava para mim com aquele ar de “que’stá dizé?”. Depois de alguém que estava ao meu lado lhe ter explicado o que eu pretendia ela lá me respondeu que não sabia de nada. Eram 6:50, o voo para Portugal partia às 7:20.

Começa a corrida que teve como ponto de partida o cais de desembarque 2F e como destino o cais de desembarque 2D. Não sei precisar ao certo mas creio que de um ponto ao outro deve ser bem mais de 1 km… a andar a pé. No entanto, a correria acabou logo na primeira curva. A imagem que se afigurava à minha frente era algo que não queria acreditar. Um “Passport Control” estava a atrasar a saída de toda a gente naquele cais de desembarque. Deviam estar umas 200 pessoas à minha frente. Dirigi-me (já não tão) simpaticamente a outra hospedeira dizendo que estava em trânsito, que tinha outro avião daí a uns minutos, que tinha uma criança pequena e que ainda tinha um longo percurso a fazer. A senhora francesa, de grande porte diga-se, disse-me que todos estavam em trânsito e que tinha que esperar como todos os outros. Eram 6:55, o voo para Portugal partia às 7:20. Tinha cerca de 1 km para percorrer a pé.

Os momentos que se seguiram foram de verdadeiro orgulho nacional. Todas as palavras feias, expressões menos abonatórias, calão, baixo calão e outras palavras e conjugações na língua do grande Camões foram por mim ditas nos 5 minutos seguintes. Tudo claro, em abono dos nossos amigos franceses. Como exemplo capaz de figurar num blog de respeito que é este, pode-se dizer que “vaca gorda do…” foi uma expressão bastante utilizada. Eram 7:00, o voo para Portugal partia às 7:20. Tinha cerca de 1 km para percorrer a pé.

Fui ter então com outra hospedeira, esta de tez negra, exactamente com os mesmos argumentos e a senhora simpaticamente disse-me que tinha tempo mais que suficiente para chegar ao outro cais de embarque (Houve aqui uma repetição do referido no paragrafo anterior.)

Miraculosamente a fila começou a andar. Em 5 minutos dava-se início à “grande corrida”. Criança ao colo num braço, sacos no outro, e lá vai a família em corrida ou em passo de corrida em direcção ao cais 2D. Eram 7:15 quando chegámos. Creio que em condições normais as portas de um avião já estão fechadas num voo que parte daí a 5 minutos. Felizmente o voo para Portugal estava atrasado.

Embarcamos. Assim que chegamos dirigi-me à minha mulher e disse-lhe “Olha amor. Já cheira a Portugal!”. O compartimento da bagagem respeitante aos nossos lugares tinha um cheiro a peixe que mais parecia que tínhamos chegado ao mercado do peixe da Praça da Ribeira nos seus tempos áureos.

Finalmente descolámos. A voz a dizer “Portugal-Portugal” estava novamente a falar-me na cabeça, desta vez de uma forma mais intensa. Durante a viagem ainda houve tempo para mais uma hilariante situação por altura em que um comissário de bordo vem oferecer uma lembrança ao meu filho, ao que eu contraponho que já tinha um igual. Ele, indignado, diz-me algo como “Então eu estou a oferecer uma coisa e vocês dizem-me que não querem pois já tem uma igual.” Estava cansado, estava a chegar a Portugal. Não tive paciência para lhe responder.

Finalmente em Portugal deu para sentir novamente o cheiro do meu país. Estava calor mas um calor diferente daquele a que não me consigo acostumar no Dubai. Nessa noite já dormi na minha cama. Acordei cedo porque o meu filho ainda devia estar no fuso dos Emiratos. Eram 7:50 estava a abrir a janela do meu quarto, a sair para a varanda e a sentir a brisa fresca da manha. Foi possivelmente a melhor sensação que tive nas últimas semanas. Finalmente senti-me em casa, e que saudades eu tinha… “Portugal-Portugal”